Ignácio de Loyola Brandão – Escritor e Jornalista

A sessão Ping-pong do Deu Post tem a honra de oferecer uma descontraída entrevista com um dos mais bem conceituados escritores do nosso país. A entrevista foi concedida gentilmente por Ignácio de Loyola Brandão, antes de se apresentar no Café com Letras, do Salão Internacional do Livro, em novembro de 2010, em João Pessoa. Será o primeiro grande nome a ser entrevistado pelo Deu Post, sem descartar a importância de Léo Marinho, guitarrista da Cabruêra que, por ter tido a coincidência de estudar comigo na UFPB, perdeu um pouco o caráter de celebridade pra mim. Mas tenho certeza que ele não se incomoda e nem busca esse status.

Foram muitos anos de carreira que eu tentei explorar em 10 minutos de entrevista, pressionada por alguns produtores querendo dar início à programação do Salão. Mas foram suficientes para conhecer o perfil desse escritor. Ele falou da sua experiência com a escrita, de como se tornou um entrevistador de celebridades a exemplo de Gisele Bündchen e de como agarrou todas as oportunidades que a vida lhe deu sem desperdiçá-las.

Ignácio é a expressão da sinceridade, da ousadia e da simplicidade estimulante que faz qualquer um que o escute, ter desejo de levantar e conquistar o mundo. Seja “vendendo palavras”, confiando em si mesmo e até sendo um pouco imprudente, sua trajetória o trouxe até aqui e o transformou em um dos melhores cronistas e romancistas do País. Vale a pena ler até o final e ainda conferir a sua belíssima crônica em homenagem a João Pessoa.

*** Deu Post ***

Deu Post: Sua biografia demonstra que o senhor é um escritor de A a Z. Já escreveu crônicas esportivas, contos infantis, trabalhou na Revista Vogue, na Revista Planeta … ao que parece não existe assunto que não seja dominado por você …[interrompida]

Ignácio: …mas nunca fiz poesia.

Deu Post: Mas fazer poesia ainda é um projeto, ou um plano?

Ignácio: Não, não consigo. Eu sou incompetente para poesia. Diferente do Azevedo [falou apontando para um amigo que assistia à entrevista] que é um poeta de verdade.

Deu Post: Como Ignácio de Loyola se classifica como escritor?

Ignácio: É… um escritor. Simplesmente um escritor. Na verdade eu sou um escritor e jornalista. Muitas das coisas que eu fiz vieram do jornalismo. Quando você mencionou a Planeta… Planeta era uma revista fascinante de fazer e mexer com todo aquele mundo sobrenatural, mexeu com minha cabeça. Então quando eu faço biografias, como eu fiz a biografia de Ruth Cardozo, eu fiz pelo interesse, pela curiosidade. Minha enorme curiosidade me leva a entrar nesses mundos. Mas eu na verdade sou mesmo romancista, contista e cronista. Só isso! [risos]

Deu post: [risos] Só isso né? Como se fosse pouco…

Ignácio: Só isso. Não mais, é verdade. Não é? [disse perguntando ao seu amigo, Azevedo, que assistia a entrevista]. Mais do que isso não sou!

Deu Post: Em textos biográficos a seu respeito, consta que na infância o senhor fez um livro em parceria com um colega de escola que não deu certo. Como foi isso?

Ignácio: Nããão… essa história com Zé Celso (José Celso Martinês Corrêa) é uma história de infância. Nós dois estudávamos na mesma escola e decidimos escrever um livrinho juntos. Por sorte nós dois ficamos conhecidos na vida, mas aquilo era uma brincadeira de criança, não tem nada de parceria. Inclusive adoraria fazer uma parceria com Zé Celso no teatro. Ele é um dos mais brilhantes e revolucionários diretores de teatro. Mas aí seria algo com teatro. O livrinho era uma brincadeira.

Deu Post: Ainda sobre essa questão de parceria eu gostaria de saber se existe algum projeto em mente que queira desenvolver com alguém?

Ignácio: Não. Eu não faço com ninguém. Eu gosto de fazer comigo. Eu não sei trabalhar junto. É muito curioso isso! Porque exige uma sintonia muito grande, uma afinação muito grande e essa afinação a gente não tem nem com a mulher que a gente casou [risos]. Tem sempre… assim…divergências. Eu acho que no fundo o trabalho do escritor é individual e solitário.

Deu Post: E projetos individuais? Tem algum em mente?

Ignácio: Sempre, senão eu tô morto. Você não conhece aquela frase de diz “a hora que o homem não tem mais sonhos e projetos e começa a reclamar, ele acabou”? Eu tenho um projeto de fazer mais um livro infantil, provavelmente a continuação do “O Menino que vendia palavras”, livro que ganhou o Jabuti em 2008 (Prêmio Jabuti de Literatura), com os mesmos personagens, as mesmas professoras e o mesmo pai. Claro, que o menino não ia trocar de pai [risos]. E esse projeto se chama, na minha cabeça, de “O menino que perguntava”. Já assinei até contrato com a editora. Agora tem que escrever. Mas é para o ano que vem.

Deu post: Qual vai ser a editora. Para adiantar para os leitores do Blog.

Ignácio: A editora Objetiva, do Rio de Janeiro.

Deu post: Falando em prêmio. Você teve dois romances premiados. “O menino que vendia palavras”, em 2008 (Prêmio Jabuti) e “Zero”, em 1976 (Prêmio de Melhor Ficção pela Fundação Cultural do Distrito Federal).

Ignácio: Prêmio é tudo uma bobagem! Prêmio não significa nada! É uma estatuetinha, um diploma, não quer dizer nada. As coisas que interessam são os livros e as obras que a gente faz. Prêmio é um acidente, muito simpático. Principalmente quando vem acompanhado de algum dinheiro. Mas é um acidente de carreira. Tem grandes escritores premiados que são ruins.

Deu Post: Os seus livros premiados, foram na sua opinião os melhores que você escreveu? Ou existem outros que o senhor avalia que não tenham sido devidamente reconhecidos?

Ignácio: Não, não sei dizer isso. Quem pode responder isso é alguém que um dia, de fora, olhe pra minha obra e faça essa análise. É difícil dizer assim: “Esse é o melhor e esse é o pior”. Eu nem sei se não são todos ruins. Tem uns livros que eu gosto. É evidente que “Zero” e “Não verás país nenhum” tiveram muita repercussão. Eu devo ao “Zero” muito da minha carreira internacional e nacional também. Devo ao “Zero” minha ida para a Alemanha, que foi um momento muito bonito na minha vida, que representou um rito de passagem pra mim. Eu gosto muito de um livro chamado “Dentes ao Sol”, que sempre vendeu muito pouco e nunca teve muita crítica. Mas eu espero que um dia o reconheçam. É difícil pro autor analisar sua obra. É a mesma coisa que dizer assim: “Dos teus filhos, qual o que você gosta mais?”. Você gosta de todos, mas um é diferente do outro.

Deu Post: Você sempre teve uma relação muito íntima com o cinema. Inclusive começou sua carreira escrevendo críticas para cinema. Como está essa relação hoje?

Ignácio: Meu primeiro sonho na vida foi ser diretor de cinema. Depois roteirista de cinema. Eu fui ser crítico por gostar muito do cinema como gosto até hoje. Mas também, eu sabia que o crítico de cinema não pagava cinema. E eu fui ser crítico para não pagar cinema. Aí de crítico passei para repórter, passei para entrevistador e acabei jornalista. Mas esse sonho do cinema eu não tenho mais.

Deu Post: Falando em jornalismo. Qual o gênero jornalístico que o senhor se identifica mais?

Ignácio: Dois gêneros. A crônica e a entrevista. Eu gosto muito de entrevista. Deu Post: Existe alguma que tenha marcado? Ignácio: Alguma que tenha marcado…? Ruth Cardozo. Que acabou me levando a fazer a biografia dela e a de Gisele Bündchen. A Gisele Bündchen me deu cinco horas de entrevista. Foi a mais longa entrevista que ela já para um jornalista em toda a história. Eu dirigia a Vogue na época. Mas fiz centenas de entrevistas… Darcy Ribeiro foi memorável, Rachel de Queiroz também. Eu tenho 50 anos de carreira … [pensando um pouco] tem Anselmo Duarte, que foi uma entrevista memorável por ser a primeira entrevista que eu fiz com alguém famoso. Eu tinha 18 anos, em Araraquara! Aquele caipira, tonto, deslumbrado. Porque o Anselmo era o ator mais importante do cinema brasileiro, era também o mais bonito, enfim. De repente tem mais de 200 entrevistas.

Deu Post: Terminando a entrevista e já agradecendo a disposição em receber o Deu Post. Tem uma curiosidade que eu gostaria de perguntar. É verdade que você foi fazer uma entrevista de emprego em um jornal e acabou entrevistando o irmão do presidente dos EUA? Como foi isso?

Ignácio: Você conhece a audácia do ignorante? Fui fazer uma entrevista de emprego na Última Hora, eu tinha 20 anos. Tinha chegado em São Paulo. Tinha um homem hospedado num hotel chamado Eisenhower. Aí o chefe de reportagem disse que era preciso saber se esse homem era ou não parente do Dwight Eisenhower, que era presidente dos EUA na época. Mandaram um dos repórteres ligar para se comunicar com ele, mas este repórter disse que não falava inglês. Então começou uma saga por todas as baias da redação e ninguém falava inglês. Aí ele perguntou para um grupo que estava próximo de mim se alguém falava e eu disse: “Eu”. Porque eu vi que, por pior que eu falasse, eu falaria melhor do que eles. E fui entrevistar o homem e fiquei 10 anos na Última Hora. Isso chama a audácia do ignorante. Se eu tivesse ficado lá quieto, talvez nem tivesse aqui hoje. Tem um momento na vida que você faz assim [faz o gesto de agarrar uma oportunidade imaginária com as mãos]: esse é o teu momento.

2 Respostas to “Ignácio de Loyola Brandão – Escritor e Jornalista”

  1. Breno 6 de dezembro de 2010 às 23:43 #

    Parabéns, pela entrevista! Assisti a maior parte da participação dele no Salão do Livro, mas essa vida acadêmica não me deixa fruir tudo de bom que essa vida oferece. Fazer o quê? Como ele mesmo disse, o negócio é agarrar a oportunidade que lhe aparece! =)

  2. Henrique 31 de janeiro de 2011 às 19:05 #

    Samara.
    Parabéns pela entrevista!
    Não é todo dia que nós podemos entrevistar um monstro da nossa literatura.
    Sucesso sempre!

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