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Do belo ao trágico: Salgueiro leva o cinema para a Sapucaí mas faz um desfile desastroso

8 mar

O Início de um belo desfile

Nunca torci tanto por uma escola de samba do Rio de Janeiro que não fosse a Mangueira. Filha de pai carioca e mãe amazonense cresci em meio a uma mistura cultural de samba com boi-bumbá. Sempre fui Mangueira no Carnaval e Caprichoso no Festival Folclórico de Parintins. Mas em 2011, o desfile da Salgueiro com o enredo “Salgueiro apresenta, o Rio no cinema” conquistou meu coração e o de todos na Marquês de Sapucaí.

O carro abre-alas levou à Sapucaí, uma réplica fiel de uma sala antiga de cinema, com cadeiras verdadeiras trazidas de Brasília. No telão do cinema eram exibidas as reações da plateia filmadas ao vivo. O público participou da composição da Escola. Em Parintins a participação da plateia conta pontos para a agremiação. Aos poucos o Carnaval do Rio vai absorvendo este conceito do Festival de Patintins, assim como a técnica dar movimento aos carros alegóricos, que também foi desenvolvida pelos artesãos da ilha no meio do Amazonas.

O desfile retratou grandes filmes gravados utilizando o Rio como cenário, a exemplo de “Madame Satã”, representado pela Escola por um carro alegórico simulando o cabaré do filme, com clientes e concubinas em seu interior. O filme Carlota Joaquina – representado pela ala das baianas, Orfeu e os filmes de Carmen Miranda foram lembrados no desfile. O enredo também retratou as diversas fases do cinema brasileiro como as chanchadas.

270 ritmistas. Com este contingente a bateria relembrou o filme Tropa de Elite e levou os ritmistas a se fantasiarem com a farda do BOPE. Viviane Araújo, rainha da bateria, era o Coronel Nascimento. Muita emoção entre os integrantes da bateria, mulheres chorando de emoção, dava literalmente o tom e o ritmo da Escola e arrepiavam o telespectador.

Segundo informações de sites especializados, o desfile teve um patrocínio de cerca de R$ 5 milhões da Fox Film do Brasil e foi plataforma para o lançamento do filme ‘Rio 3D’, animação produzida pelo diretor de ‘A Era do Gelo’, Carlos Saldanha. Cenas do filme eram projetadas no telão do abre-alas no início do desfile que tinha tudo para dar certo.

A mais bela e problemática alegoria do Salgueiro em 2011

King Kong. Tudo estava encantador, como de fato é o cinema. Mas sucessivos problemas começaram a aparecer. O carnavalesco Renato Lage criou carros alegóricos esplendorosos, luxuosos e … enormes. Sua megalomania foi a causadora do atraso de 10 minutos no desfile do Salgueiro. O carro que trazia um King Kong acoplado à torre da Central do Brasil era gigante e causou um atraso decisivo para a Escola. Os problemas continuaram com o último carro que trazia um lindo Oscar à moda brasileira. Uma Belíssima alegoria que teve problemas para entrar e sair do Sambódromo.

O Oscar brasileiro

Resultado. A bateria nem teve tempo para entrar no recuo, correria de integrantes e organizadores. Até a presidente da Escola, Regina Celi, vendo o sonho do título se tornar um pesadelo, literalmente desceu do salto para tentar amenizar o atraso e comandar aquele caos que se formou. Na dispersão um carro alegórico pegou fogo, alegorias se acumulavam entre integrantes. Ninguém saia do lugar. Caos, choro, decepção e tristeza. O somatório do caos foi igual à perda de um ponto, o que provavelmente tira a escola da briga pelo título.

Até para uma torcedora da Mangueira foi triste. O desfile foi nota 10. Um passeio pela história do cinema brasileiro. Creio ter faltado uma menção a Glauber Rocha, mas nada que tirasse o mérito do enredo. Assisti ao desfile perplexa e acompanhei todo um trabalho primoroso de um ano ser desperdiçado. Meu coração se dividiu em 2011, mas continuo Mangueira e apaixonada por cinema. Resta-me agora torcer pela Mangueira!

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