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Consumindo mitos: Amy Winehouse foi só mais uma

27 jul

Sofrimento Solitário

Desde a morte do cantor Michael Jackson percebi um padrão de comportamento da sociedade em relação aos grandes mitos seja da música, da literatura, da atuação, do cinema ou qualquer área artística.  Para a sociedade, os mitos deixam de ser pessoas e passam a ser tratados, consumidos como produtos.

Assisto a documentários sobre a vida de artistas, como o E! True Hollyood History, veiculado no canal fechado E!, e noto com tristeza que a vida dessas pessoas talentosas são consumidas até a morte pelas drogas, sucumbindo muitas vezes por suicídio. Depois de mortos são reconhecidos como pessoas. Editoriais salpicam em toda a imprensa, em primeira página, a agonia em que viveram nos últimos dias de vida. Como foram explorados por agentes, empresários e até pela própria família.

A carreira de sucesso que começa muito cedo, a exemplo de Michael Jackson que, aos cinco anos de idade, era obrigado a dormir no mesmo quarto dos irmãos adolescentes durante as turnês. Os irmãos curtiam a vida com mulheres e drogas na frente do irmão. Mas não importava, afinal, no outro dia, The Jackson Five tinham que cantar e cumprir agenda de shows.

Não esqueço o depoimento do médico que cuidava de Michael Jackson relatando as doses cavalares de remédio para dor que o ídolo consumia, antes de morrer em 2009. Que dor era essa, que nunca passava com os remédios mais fortes do mercado? Tomar anestésicos para dormir revelava uma agonia que ninguém enxergou, até sua morte. Quantos fãs surgiram em frente a Neverland para homenageá-lo, cantando Thriller, Black or White, vestindo suas roupas e dançando, aos prantos. Mas durante décadas envolto no mais profundo esquecimento, ninguém lembrava do mito. Foi consumido, como um brinquedo ou roupa que saiu de moda.

Se a cantora Amy Winehouse, não é mais um exemplo desse consumo da sociedade em relação a seus ídolos, então não sei mais o que seria. Quantas vezes li em blogs como o de Zeca Camargo ou mesmo em redes sociais de editores de cadernos de cultura locais, os comentários deles aos assistirem aos shows de Winehouse, achando normal a cantora ter paranoias no palco, cair e esquecer as letras. “Quem quiser ver performance que vá assistir a um show da Beyonce. Amy Winehouse é isso mesmo”, dizia um colunista.

Amy Winehouse, o anjo do papai

“Boa noite meu anjo, durma bem”, disse o pai da cantora em seu enterro. Quando foi que o anjo desse pai se tornou esse produto a ser consumido até o final da vida? E a partir de que momento esse anjo só era sucesso, se desse vexame nos shows? Muitos dizem, achando que conheciam a cantora que ela não queria sair daquela vida. Não foi o que a dona de um pub, em Londres declarou após a morte da cliente fiel: “Amy pediu para que eu, não importa o que ela dissesse, não vendesse mais bebida para ela porque havia largado o vício”. Ela estava tentando sim, mas droga não é só questão de decisão, todos nós sabemos.

Talento consumido, Amy Winehouse (1983-2011)

Mas não importa! O “gancho” das editorias é que ela se tornou o nono elemento do clube mórbido dos mitos que morreram aos 27 anos, o “clube dos 27”. Ainda existe o “clube dos jotas” (Jimi Hendrix, Jim Morrisson, Janis Joplin) que, além da coincidência da letra, também morreram aos 27. Uma lenda que ronda o cenário do rock desde 1970. A morte desses talentos em sua maioria por overdose e suicídio são apenas números e significam a perda de um produto que gera mais novidades. As obras póstumas ou os últimos discos de sucesso ainda estarão nas prateleiras por um tempo, mas a validade do produto já se extinguiu.  Ainda se fala em legado, marcas, mitos, mas eles se foram e não poderão mais ser nada disso. Quem será o próximo produto da estação, da moda? E quanto tempo vai durar?